25.9.15

"Blogues pelo mundo" por Rita João autora do Blogue: a 2 cm do chão


A rubrica Blogues pelo mundo (gosto tanto!) está de volta, desta vez com a história da Rita João!

Ambas ribatejanas, partilhámos tempos de escola, partilhámos o grupo de amigos, mantemos ainda hoje amigos em comum e vamo-nos "vendo" por aqui. Ela no seu blogue. Eu no meu.
Sabia que a Rita, o Carlos e os miúdos tinham decidido ir para Bruxelas, mas o que viria depois foi uma surpresa enorme para mim!

Quando contactei a Rita, convidando-a a dar-me o seu testemunho, a Rita pediu-me um tempo porque estava novamente de "malas feitas", desta vez para o outro lado do mundo...

Querem saber mais?
Aqui fica o testemunho desta família adorável!

"Decidimos deixar Portugal há 3 anos atrás.
Deixámos para trás tudo o de espectacular e maravilhoso que o nosso país e nossa terra natal têm e acima de tudo deixámos para trás a família, os amigos, os colegas, o trabalho.
Portugal não ia bem e apesar de ambos na altura ainda mantermos o nosso trabalho, não vislumbrávamos um futuro promissor no nosso sector.

Surgiu uma oportunidade e decidimos arriscar.
Partimos para Bruxelas, primeiro o Carlos e passado um mês eu e os nossos dois filhos, na altura com três e um ano de idade.

Decidimos que de início eu ficaria com os pequenos para eles poderem ter mais aconchego e atenção, na tentativa de minimizar qualquer desconforto maior que todas estas alterações pudessem trazer-lhes e sendo assim, seria somente o Carlos a trabalhar.

Mudar a vida toda para um país diferente do nosso país natal, em que se fala uma língua diferente da nossa, tem momentos difíceis mas o facto é que nós sempre nos sentimos confiantes nas nossas decisões e nunca tivemos medo e tudo porque, acima de tudo, estávamos juntos. Nós sabíamos que acontecesse o que acontecesse tínhamo-nos uns aos outros e isso é o que pode haver de mais importante em qualquer decisão que uma família possa tomar: permanecer juntos, porque só assim o nosso amor e o nosso projecto de vida podem fazer sentido.

Contudo não foi só isso que fez com que ultrapassássemos todas as vicissitudes que um emigrante tem de enfrentar no país de acolhimento. O facto é que nós não saímos de Portugal como em tempos os antigos emigrantes portugueses saíram de Portugal, de mãos vazias e para um mundo totalmente desconhecido. Esses sim, tiveram um recomeço muito duro e difícil.

Para nós, perante um mundo cada vez mais global e com a nossa principal arma na bagagem, o nosso curso e toda a nossa experiência e formação profissionais já acumuladas, foi possível encontrar e assegurar um caminho de certa forma tranquilo.

É claro que isso não invalidou um período de adaptação inicial mais conturbado e inseguro, experienciando sentimentos opostos, já que na busca e determinação por manter os nossos antigos costumes e hábitos era necessário reconhecer a necessidade de adaptação a um mundo novo, com outras regras, com outro tipo de pessoas e temperamentos, produtos desconhecidos, banhado por algumas línguas imperceptíveis e outras ainda pouco conhecidas por nós, convivência com uma miscelânea de culturas e credos, enfim todo um mundo diferente onde era imperativo encontrar uma nova casa, médicos, escolas, acertar as burocracias e uma infinidade de outros assuntos acompanhados de muitas dúvidas, incertezas e pesquisas.

No primeiro ano, as saudades do nosso país foram muitas e principalmente eu estava constantemente a ansiar por este ou outro sítio especial de Portugal, por aquela comida, por estar com tal pessoa, sempre a fazer comparações, e que Portugal é que era…

Porém, o tempo foi passando e o ser humano tem esta capacidade incrível de se adaptar a tudo. Às tantas já gostávamos de estar em Bruxelas, já não nos importávamos com o frio, adorávamos falar francês, os pequenos adoravam a sua nova escola, já tínhamos amigos, adorávamos gauffres e crepes, adorávamos a multicultaridade de Bruxelas, tudo estava bem.

É certo que eu ainda não trabalhava… mas já que assim era, não seria esta uma altura espectacular para concretizar a nossa grande vontade de ter um terceiro filho? Pareceu-nos bem que sim.

Em Fevereiro de 2014, numa manhã ventosa em Bruxelas, nasceu a terceira pérola preciosa da nossa vida, a Maria e claro que este acontecimento marcou para sempre nos nossos corações a cidade de Bruxelas.

A família estava calma e feliz. Afinal de contas até estávamos num país da Europa, civilizado, evoluído e já com uma série de low-costs a voar a toda a hora para o nosso adorado país, se as saudades apertassem muito, íamos lá num pulinho e voltávamos. Por terras belgas até havia uma comunidade portuguesa enorme que de alguma forma se entreajudava bastante entre si. Tudo estava bem.

Eis quando senão a vida volta a dar uma volta.
Passados dois anos e meio de estarmos em Bruxelas outra proposta a requerer uma grande e ponderada decisão familiar.
Mudar toda a vida novamente, para um outro país, para uma outra cidade, desta vez do outro lado do grande Oceano Atlântico.
Aterrámos os cinco em Houston no passado mês de Abril.

Desde então que nos temos desdobrado em reorganizar outra vez toda a nossa vida nesta grande e imensa cidade. O ser humano adapta-se a tudo e os dois anos e meio em Bruxelas serviram sem dúvida de muito. Esta mudança gigante que requereu uma logística imensa foi amenizada por um sem número de partilha de histórias de outras famílias que viviam em Bruxelas e que já tinham experienciado nas suas vidas, muito mais de que apenas uma vez, situações em tudo semelhantes à nossa.

Houston é uma cidade que, tal como Bruxelas, está invadida por famílias de expatriados, andando algumas destas famílias em saltos pelo mundo há já bastantes anos. Também aqui me tenho cruzado com muitas histórias deste tipo.

Oiço estas histórias, olho para a história da nossa família e penso que durante toda a minha infância, adolescência e vida em Portugal, jamais concebi que alguém pudesse viver assim a saltitar pelo mundo, com a família e a casa às costas e que ainda assim, pudessem ser muito felizes, mas a verdade é que podem e são, porque a tranquilidade e felicidade que trás a partilha constante e diária do amor no seio de uma família é qualquer coisa de poderoso e imenso face a qualquer circunstância que a vida nos ofereça."

Texto por Rita João, autora do Blogue a 2 cm do chão


Obrigada Rita João pela tua deliciosa partilha.
De facto, quando há amor não há barreiras nem dificuldades que não se ultrapassem!!O amor vence tudo!
Um beijo para os cinco direitinho para Houston nos EUA.

Obrigada!
Um beijo
Rita M.


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